Todos os dias lá estou naquele ponto de ônibus de volta á casa e fico a contemplar a velha mangueira que jaz solitária num terreno ermo, em minha direção .
Dou uma volta ao passado e vejo naquele lugar uma avenida de modestas casas de quase nenhum quintal, umas coladas as outras. Bem no fundo de um pequenino quintal, quase sem espaço para crescer e florescer, jazia a pequena mangueira. Fico a imaginar por quantas venturas e desventuras passou temendo até virar lenha.
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Você deve ter abrigado um sem número de coisas sob sua copa; tanque de roupa, casinha de cachorro, abrigo de pássaros, poleiro de galinhas,etc.Deve também ter visto e ouvido discussões, palavrões, choros, festinhas de aniversário, algazarra de crianças. Talvez tivesse sido alvo de elogios pela utilidade doméstica.
Imagino também que você acompanhou o nascer e o crescer de crianças. Sofreu, por receber pedradas e pauladas em busca dos saboroso frutos.
O tempo passou "num passe de mágica ", as casas foram derrubadas uma a uma. Nada mais existe alí . Nem parece que outrora havia tudo aquilo. Hoje só resta a velha mangueira, bem no meio daquele terreno baldio, sozinha. Ao seu lado havia dois enormes jameloeiros que não tiveram a mesma sorte, desapareceram.
Até agora não entendi porque você ficou aí só, esquecida, indiferente a tudo e a todos. Não é uma mangueira frondosa, nem sombra tem, pois sempre aparece alguém que a mutila.
Não vejo tristeza em você, pelo contrário, apresa de maltratada, você tem um porte altaneiro, majestoso e impotente. Até parece sentir-se orgulhosa pelos bons serviços prestados no passado. Se eu tivesse o dom da pintura, a colocaria na tela numa derradeira homenagem.
Continuo daqui do meu ponto de ônibus, em admirá-la pela resistência, heroísmo, altivez e magnitudo enquanto a árvore.
Escrito : Loíde Santos


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